A diversidade de peixes em riachos de cabeceira é determinada por fatores ambientais locais e pelas características da paisagem circundante. No entanto, atividades humanas têm alterado os ecossistemas, convertendo áreas naturais em áreas antropizadas, deteriorando a qualidade da água e provocando a perda de biodiversidade em riachos. Apesar disso, não está claro se as perturbações antrópicas afetam as assembleias de peixes de forma semelhante ao longo de gradientes altitudinais. Neste estudo, nós amostramos peixes em 22 riachos de cabeceiras ao longo de um gradiente altitudinal, variando entre 500 e 1800 metros acima do nível do mar, para investigar a hipótese de que a estrutura da comunidade de peixes em riachos de cabeceira é determinada pelo uso do solo no entorno dos riachos, e pela altitude. Modelos aditivos generalizados (GAMs) revelaram que tanto a riqueza de espécies quanto a abundância dos peixes foram primariamente determinadas pela altitude, apresentando uma relação não-linear com maior diversidade em altitudes intermediárias. A análise multivariada de redundância (RDA) indicou que áreas menos impactadas abrigam comunidades de peixes mais especializadas e menor ocorrência de espécies exóticas invasoras, enquanto áreas antropizadas sofrem substituição por espécies tolerantes e invasoras. Os resultados do estudo destacam que a altitude é um importante estruturador de comunidades de peixes em pressões antrópicas que afetam a diversidade de peixes em riachos em ecossistemas montanhosos. E a pressão antrópica pode alterar a qualidade de água e facilitar o estabelecimento de espécies generalistas e tolerantes, reduzindo a singularidade das comunidades de peixes. Dessa forma, a conservação de espécies únicas e adaptadas a riachos de altitude só será possível com a adoção de medidas para reduzir a conversão de áreas naturais em áreas antropizadas.
Mosquitos da família Corethrellidae, representada pelo gênero Corethrella, são dípteros hematófagos especializados em anfíbios anuros e apresentam comportamento fonotático, sendo atraídos pelos chamados de suas presas na fase adulta. Suas larvas ocupam diversos tipos de ambientes aquáticos e fitotelmatas, como buracos em bambus, eixos foliares, poças no solo, margens de riachos, pequenos córregos e zonas hiporréicas de rios e riachos. Apesar de predominarem na região Neotropical, pouco se sabe sobre os processos que modulam suas assembleias, o que limita a compreensão de sua ecologia e de aspectos relacionados à sua conservação. Neste estudo, avaliamos se a disponibilidade de sítios de oviposição e a riqueza e abundância de presas (anuros) modulam a riqueza e a abundância de Corethrella no Parque Estadual da Serra Furada (PAESF), Santa Catarina, sul do Brasil. Considerando a dependência desses dípteros de anuros como presas e de ambientes aquáticos e fitotelmatas para desenvolvimento larval, realizamos duas expedições ao PAESF e inventariamos Corethrella por meio de armadilhas sonoras (frog-call pan traps) instaladas no solo em sete parcelas permanentes, totalizando 63 horas de esforço amostral. Também mensuramos variáveis ambientais relacionadas a potenciais sítios larvais, como frequência de bromélias e distância ao riacho mais próximo. Ao todo, capturamos 66 fêmeas distribuídas em seis espécies: C. pillosa (n=31), C. cardosoi (n=17), C. lopesi (n=12), C. blanda (n=3), C. alticola (n=2) e C. aff. atricornis (n=1). Modelos GLM ajustados para riqueza e abundância indicaram que nenhuma das covariáveis abióticas e bióticas testadas (abundância de anuros, disponibilidade de bromélias e distância de riachos) explicou a variação observada entre as parcelas. A ausência de correlação sugere que, em escala local, fatores não medidos, como a alta capacidade de dispersão dos adultos ou um comportamento de busca por hospedeiros mais generalista do que o presumido, podem ser mais determinantes na estruturação das assembleias. Em escala regional, nossos achados se alinham à tendência de maior diversidade de Corethrella em latitudes menores, possivelmente relacionada a condições climáticas e à história evolutiva do grupo.
Plantago rahniana é uma espécie herbácea endêmica e ameaçada, encontrada nos campos de altitude de Santa Catarina. A escassez de informações sobre sua biologia reprodutiva, combinada ao status de conservação da espécie, torna relevantes os estudos sobre sua germinação. Considerando a distribuição natural da espécie e o conhecimento existente sobre o gênero Plantago, partiu-se da hipótese de que a espécie exibe dormência fisiológica, a qual pode ser superada por tratamentos que simulem suas condições ambientais. As sementes foram coletadas e beneficiadas, seguidas pela aplicação dos seguintes tratamentos: controle, luz, ácido giberélico em três concentrações e estratificação em três períodos distintos. Após 40 dias de experimento, oito indicadores de germinação foram avaliados nos oito tratamentos. Os resultados demonstram que o controle apresenta baixa germinação com alta viabilidade, confirmando a presença de dormência. As respostas aos tratamentos com GA?, estratificação e luz confirmaram a dormência fisiológica. As maiores taxas de germinação ocorreram com GA? 0,5 mM e 7 dias de estratificação, porém diferiram na dinâmica germinativa. Enquanto a estratificação promoveu uma germinação mais rápida e mais síncrona, o GA? induziu um processo lento e mais assíncrono. A luz também estimulou a germinação, porém sem obrigatoriedade. O tratamento de 1 dia de estratificação não foi o suficiente para a superação da dormência. Essa dependência da duração da estratificação para a superação da dormência sugere uma vulnerabilidade significativa às mudanças climáticas, o que pode comprometer ainda mais seu status de conservação. Conclui-se que P. rahniana apresenta dormência fisiológica, eficientemente superada pela simulação de frio (estratificação). Os dados obtidos neste estudo preenchem lacunas no conhecimento sobre sua germinação e servem de base para estudos futuros e planos para a conservação da espécie e da biodiversidade dos campos de altitude do sul do Brasil.
A composição de comunidades biológicas é determinada por fatores abióticos e bióticos em diferentes escalas espaciais, nos quais a paisagem atua como filtro ambiental. Em um cenário em que as paisagens naturais vêm se modificando, principalmente por ação antrópica, compreender a relevância da paisagem para a composição de comunidades é fundamental para mitigar a perda da biodiversidade e direcionar esforços de conservação. O presente estudo amostrou a fauna de insetos aquáticos em 10 riachos localizados em paisagem composta de mosaicos campo-floresta, no Parque Nacional de São Joaquim e entorno, para compreender a relação das características da paisagem, tanto cobertura de campo quanto de floresta, com atributos da comunidade (composição taxonômica e funcional) e diversidade beta de insetos aquáticos Ephemeroptera, Plecoptera e Trichoptera (EPT), em uma abordagem de multiescala espacial. Foram coletados 1.246 indivíduos das ordens EPT. As análises sugerem que a composição taxonômica das comunidades de EPT esteve significativamente associada aos gradientes de cobertura da terra, com maior singularidade na composição taxonômica em riachos inseridos em paisagens dominadas por campos e elevada contribuição da substituição de espécies para a diversidade beta. Além disso, as escalas espaciais ripária e de drenagem exerceram maior influência sobre a composição das comunidades. Os resultados indicam que tanto campos quanto florestas são essenciais para a manutenção de comunidades de EPT. Esses achados destacam a importância de conservar o mosaico campo-floresta e reconhecer os ambientes de campo como sistemas não homogêneos capazes de contribuir para condições favoráveis para determinados táxons, colaborando para a diversidade de comunidades. Além disso, ao considerar a importância da relação entre a composição da comunidade e escalas ripárias e de drenagem, é possível desenvolver estratégias mais eficazes para a conservação da biodiversidade, e estudos futuros devem avaliar se esse padrão de biodiversidade em multiescalas espaciais também é observado para outras comunidades biológicas.
Ecossistemas terrestres vêm sendo modificados por influências humanas há milênios. Alguns grupos humanos mantêm relações profundas com os ecossistemas que habitam, o que desafia abordagens conservacionistas baseadas na separação entre natureza e cultura. Para uma conservação mais efetiva da biodiversidade, é fundamental integrar práticas culturais locais, por meio de abordagens bioculturais que reconheçam essa interdependência. Buscamos compreender os legados das interações humanas e o papel do manejo na manutenção e dinâmica de paisagens bioculturais no sul do Brasil. Nosso objetivo foi identificar as espécies de interesse humano presentes em diferentes unidades de paisagem, comparando a influência do manejo em locais de ocupação humana antigas e atuais, conhecidas como taperas, para entender como as práticas culturais moldam a composição e as dinâmicas ecológicas dessas paisagens. Para isso, realizamos entrevistas semiestruturadas e estruturadas com uma comunidade local que possui territórios dentro do Parque Nacional de São Joaquim (SC), uma unidade de conservação de proteção integral. Nossos dados revelaram que os ecossistemas de campos de altitude e florestas de araucária são influenciados pelas interações humanas e pelas práticas de manejo, tanto atuais quanto passadas. Esses manejos, por meio de práticas como transporte e favorecimento de determinadas espécies, criam paisagens bioculturais e multifuncionais próximas às áreas ocupadas. Observamos que essas unidades de paisagem são enriquecidas por espécies de interesse humano, cuja seleção reflete valores culturais e de bem-estar humano. Além disso, práticas de manejo da paisagem, como o uso do fogo, atividades de pecuária e remoção de espécies, demonstram a manutenção dos campos, impedindo a aceleração do avanço da floresta sobre esses ecossistemas. Nas taperas, onde o manejo foi abandonado ou diminuído, ainda persistem espécies de interesse humano, especialmente aquelas associadas a memórias afetivas e histórias locais, como por exemplo a goiaba-serrana (Acca sellowiana), maçã (Malus domestica) e alho-burro (Allium ampeloprasum). Também identificamos um adensamento arbustivo de espécies pioneiras, como Baccharis spp., em áreas que eram campos abertos mantidos por práticas tradicionais. Essa dinâmica evidencia como o manejo humano influencia diretamente a composição, a manutenção e dinâmica ecológica dessas paisagens. Nossos resultados reforçam a importância de reconhecer o manejo tradicional nas estratégias de conservação da biodiversidade, ressaltando que a integração desses saberes ancestrais pode promover paisagens mais resilientes, diversas e culturalmente significativas.
Macrofungos do filo Ascomycota formadores de apotécios não liquenizados são um grupo heterogêneo, não monofilético, que apresentam como traços morfológicos em comum a ausência de associação com algas, produzir estruturas reprodutivas macroscópicas e dispor seus ascos em um himênio exposto. Apesar de sua natural abundância nos ecossistemas terrestres, estudos com esse grupo de fungos no Brasil são extremamente incipientes e escassos. Este estudo explora de forma preliminar esse grupo no Parque Nacional de São Joaquim. O Parque foi criado em 1961 e 49.800 ha e abriga uma região com perfil altitudinal de 400 a 1822 m, distribuída em cinco municípios, com vegetação predominantemente composta por Floresta Ombrófila Mista e Campos de Altitude. Os fungos foram amostrados por caminhamento em diferentes localidades do Parna de 2018 a 2020, perfazendo 161 dias de amostragem em campo. Ao todo foram coletadas 119 amostras, pertencentes a 42 diferentes táxons, distribuídos em oito ordens: Geoglossales, Helotiales, Leotiales, Orbiliales, Ostropales Patellariales, Pezizales e Rhytismatales, de forma que as mais diversas foram Helotiales, com 20 diferentes táxons e Pezizales, com 13. Os espécimes coletados foram identificados até a hierarquia taxonômica mais baixa possível (ordem, família, gênero ou espécie). A maior parte dos materiais identificados em nível específico pertenceu à ordem Pezizales, que adicionalmente teve uma nova espécie do gênero Phillipsia e outra de Urnula descritas neste estudo. Além destes, foram descritas três novas espécies do gênero Microglossum, pertencente à ordem Leotiales e dois Geoglossales, um do gênero Trichoglossum e outra do gênero Glutinoglossum. Todos os materiais descritos neste estudo foram detalhadamente analisados com base na sua macro e micro morfologia, além da utilização de outras abordagens, quando possível, como biologia molecular e dados relativos à biogeografia e ecologia das espécies.
O fogo, um distúrbio comum em ecossistemas campestres, pode atuar como estímulo germinativo, favorecendo a germinação de espécies com dormência fisiológica. Apesar de plantas campestres apresentarem estruturas vegetativas que garantem a sobrevivência e a regeneração após distúrbios, pouco se sabe sobre o papel do fogo na germinação de sementes nesses ambientes. Tivemos como objetivo avaliar o efeito do fogo na quebra da dormência fisiológica de espécies campestres em campos de altitude no sul do Brasil. Nossa hipótese é que o calor quebra a dormência fisiológica das sementes, aumentando a velocidade e a taxa de germinação, por se tratarem de espécies que fazem parte de um ecossistema que evoluiu na presença de fogo. Ao mesmo tempo, esperamos que as espécies apresentem resistência aos tratamentos de temperatura. A nossa área de estudo foi os campos de altitude do Parque Nacional São Joaquim (SC), onde coletamos sementes de seis espécies campestres nativas. Submetemos as sementes a quatro tratamentos em laboratório: 1) 50°C por 1 minuto; 2) 100°C por 1 minuto; 3) luz; e 4) controle. Após os tratamentos, avaliamos a viabilidade das sementes que não germinaram por meio do teste de tetrazólio. Duas espécies apresentaram dormência fisiológica; entretanto, os tratamentos aplicados não foram suficientes para quebrar a dormência. Ao mesmo tempo, a maioria das espécies apresentou tolerância ao calor, mantendo porcentagens de germinação semelhantes às do tratamento controle. Essas respostas sugerem possíveis estratégias adaptativas à recorrência do fogo, nas quais a velocidade de germinação e a resistência ao calor podem representar vantagens competitivas importantes para o recrutamento e estabelecimento em ecossistemas campestres. Nosso estudo apresenta resultados novos e relevantes sobre a germinação de espécies campestres, contribuindo para o avanço do conhecimento sobre esses ecossistemas e fornecendo base para planos de manejo que considerem o papel do fogo em estratégias de restauração e conservação de campos nativos.
O fogo, um distúrbio comum em ecossistemas campestres, pode atuar como estímulo germinativo, favorecendo a germinação de espécies com dormência fisiológica. Apesar de plantas campestres apresentarem estruturas vegetativas que garantem a sobrevivência e a regeneração após distúrbios, pouco se sabe sobre o papel do fogo na germinação de sementes nesses ambientes. Tivemos como objetivo avaliar o efeito do fogo na quebra da dormência fisiológica de espécies campestres em campos de altitude no sul do Brasil. Nossa hipótese é que o calor quebra a dormência fisiológica das sementes, aumentando a velocidade e a taxa de germinação, por se tratarem de espécies que fazem parte de um ecossistema que evoluiu na presença de fogo. Ao mesmo tempo, esperamos que as espécies apresentem resistência aos tratamentos de temperatura. A nossa área de estudo foi os campos de altitude do Parque Nacional São Joaquim (SC), onde coletamos sementes de seis espécies campestres nativas. Submetemos as sementes a quatro tratamentos em laboratório: 1) 50°C por 1 minuto; 2) 100°C por 1 minuto; 3) luz; e 4) controle. Após os tratamentos, avaliamos a viabilidade das sementes que não germinaram por meio do teste de tetrazólio. Duas espécies apresentaram dormência fisiológica; entretanto, os tratamentos aplicados não foram suficientes para quebrar a dormência. Ao mesmo tempo, a maioria das espécies apresentou tolerância ao calor, mantendo porcentagens de germinação semelhantes às do tratamento controle. Essas respostas sugerem possíveis estratégias adaptativas à recorrência do fogo, nas quais a velocidade de germinação e a resistência ao calor podem representar vantagens competitivas importantes para o recrutamento e estabelecimento em ecossistemas campestres. Nosso estudo apresenta resultados novos e relevantes sobre a germinação de espécies campestres, contribuindo para o avanço do conhecimento sobre esses ecossistemas e fornecendo base para planos de manejo que considerem o papel do fogo em estratégias de restauração e conservação de campos nativos.
Em ambientes florestais, distúrbios como a queda de árvores, ciclones e fogo influenciam a dinâmica de populações e comunidades. Distúrbios com níveis intermediários de intensidade, frequência e severidade podem aumentar a diversidade e mudar a composição de espécies. Já em níveis mais elevados, distúrbios em escalas maiores podem desmantelar comunidades e afetar negativamente os ecossistemas. Neste contexto, a recolonização e regeneração por espécies-chave são cruciais para promover a resiliência e a biodiversidade do ecossistema. No sul do Brasil, o fogo faz parte da dinâmica natural dos campos de altitude e molda os mosaicos de campos e florestas nas regiões montanas. Entretanto, desconhecemos os efeitos das diferentes severidades de fogo na vegetação florestal e o papel das diferentes estratégias de espécies-chave diante deste distúrbio. Nosso objetivo foi avaliar quais fatores contribuem para a regeneração da Araucaria angustifolia, uma conífera-chave que domina as florestas montanas no sul do Brasil, e qual a resposta dos indivíduos sob diferentes níveis de severidade do fogo. Nossa hipótese é de que o fogo pode contribuir para a manutenção das populações de Araucária. Se este for o caso, esperamos que sob baixas severidades os indivíduos já estabelecidos consigam persistir na população através do rebrote. Nessas condições, esperamos que o recrutamento da espécie aumentará, devido à abertura de espaço e redução da competição, favorecendo a regeneração. Realizamos o estudo no Parque Nacional de São Joaquim, em locais recentemente impactados pelo fogo. Instalamos 30 parcelas de 100 m² em cinco regiões (150 parcelas) ao longo de um gradiente de severidade de fogo. Cada parcela foi amostrada em dois momentos pós fogo (1 e 3 anos), onde todos os indivíduos de Araucária localizados foram mapeados e classificados como: vivo, morto, rebrote ou recrutamento. Também coletamos as seguintes variáveis ambientais em cada parcela: cobertura de rocha, abertura do dossel, distância da fonte de dispersão e área basal total de arbustos. Modelamos a regeneração e a probabilidade de morte ou rebrote dos indivíduos utilizando GLMs. Nossos resultados apontaram que a distância da fonte de dispersão e o fogo tiveram importante papel na regeneração da espécie. A regeneração da Araucária foi negativamente afetada com o aumento da distância da fonte de dispersão. Em relação ao fogo, nossa hipótese foi corroborada, pois sob severidades baixas e intermediárias os indivíduos de Araucária tiveram maior probabilidade de persistir do que de morrer, e a regeneração da espécie foi favorecida quando comparada a locais sob alta severidade de fogo e áreas não queimadas. Nosso estudo evidencia que plântulas de Araucária possuem mecanismos capazes de garantir sua persistência, de forma que mesmo após fogo de severidade baixa a intermediária, os indivíduos conseguem se manter na população.
A presente tese propõe uma análise abrangente das intrincadas interações entre os insetos da ordem Diptera e os anfíbios, visando preencher lacunas de conhecimento e integrar informações dispersas entre os campos da herpetologia e entomologia. Principalmente, damos destaque as relações entre dipteras especialistas em explorar anfíbios a importância de conhecermos estas relações. No primeiro capítulo, portanto, uma revisão sistemática revela três principais guildas de interações: micropredadores, predadores de ovos e causadores de miíase. Essas relações abrangem desde interações oportunistas até altamente especializadas, refletindo a diversidade de estratégias tróficas adotadas por ambos os grupos ao longo de suas histporias evolutivas. Essa análise detalhada não apenas identifica as diferentes formas de exploração dos anfíbios pelos dipteros, mas também destaca a complexidade e a riqueza dessas interações em termos de número de espécies envolvidas e adaptações comportamentais. Damos destaque ainda as variações entre espécies em relação ao uso de seus hospedeiros e presas, diferenciando especialistas de espécies generalistas e como estas relações variam no espaço-tempo. No segundo capítulo, são examinadas as consequências ecológicas e evolutivas dessas interações. Esse estudo revela como os anfíbios respondem às pressões seletivas impostas pelos dipteros, desenvolvendo uma variedade de mecanismos defensivos. Além disso, investiga-se o papel dos fatores antropogênicos na modificação dessas relações, destacando o impacto das atividades humanas na dinâmica e na estabilidade desses ecossistemas. Essa análise amplia nossa compreensão não apenas das interações entre as espécies, mas também de como as perturbações humanas podem moldar essas relações de maneira significativa, enfatizando a importância da conservação e da gestão sustentável destas espécies. No terceiro capítulo, um estudo de caso específico sobre as interações entre mosquitos-picadores-de-sapo e anfíbios anuros é apresentado. Utilizando uma abordagem integrativa que combina dados morfológicos, informações de distribuição e conhecimento sobre suas interações, o estudo destaca a importância das amostragens focais na descoberta de novas espécies e no preenchimento de lacunas de conhecimento. Essa análise fornece insights valiosos sobre a diversidade não conhecida dentro desse grupo particular de insetos e destaca a importância de considerar os grupos especialistas ao planejar medidas de conservação. Em suma, a tese não apenas contribui significativamente para a compreensão da biodiversidade e das interações entre dipteros e anfíbios, mas também lança luz sobre a complexidade e a importância dessas relações na
ecologia e evolução de ambos os grupos. Diante dos desafios representados pelos impactos antropogênicos, essa pesquisa destaca a urgência de ações de conservação direcionadas a proteger essas interações e os ecossistemas que as sustentam.
A ocorrência e a diversidade de ecossistemas podem ser definidas pelo regime de distúrbios e contexto ambiental. Fatores abióticos e interações bióticas locais podem influenciar a diversidade de espécies. O regime de distúrbios com queimas recorrentes e pastejo por gado doméstico promove a ocorrência e permanência de campos em mosaicos campestres-florestais. Esse regime de distúrbios é aplicado por produtores rurais, mas impedido em unidades de conservação. A aplicação de um manejo antidistúrbio pode levar ao domínio dos campos por poucas espécies, e ao acúmulo de necromassa, a qual diminui o espaço disponível nas comunidades herbáceas e aumenta a inflamabilidade. Além disso, outras condições ambientais locais podem interagir com distúrbios para determinar a organização de comunidades de plantas campestres. Desta forma, nosso objetivo foi avaliar possíveis fatores estruturadores da diversidade da vegetação e verificar a influência do regime de fogo e do contexto ambiental local sobre os campos de altitude, no sul do Brasil. Nossa hipótese é que a diversidade de espécies seja maximizada em locais com regime de fogo bianual, pois evita o acúmulo de necromassa, permitindo maior diversidade de espécies. Realizamos o estudo em campos de altitude no Parque Nacional de São Joaquim. Amostramos um terreno em 336 quadrados de 1 × 1 m, distribuídos em 28 parcelas de 70 × 70 me agrupadas em 7 blocos. Para os quadrados, obtivemos dados de volume de biomassa e necromassa, profundidade do solo, cobertura de rochas, solo descoberto, informação do terreno, índice de carga térmica e quantidade de esterco bovino (variáveis ambientais locais). Para as parcelas, obtivemos dados de frequência e recorrência de fogo a partir de imagens de satélite nos últimos 32 anos e tempo sem fogo (regime de fogo). Avaliamos a diversidade alfa como a riqueza de espécies e o domínio de espécies com o índice de Simpson por quadrado. Verificamos ainda a relação entre volume de necromassa com a dominância de espécies. Por último, avaliamos a diversidade beta obtendo a divisão dos componentes de troca de espécies e diferença na riqueza por quadrado. A diversidade alfa, beta e dominância foram modeladas em função das variáveis ambientais locais e do regime de fogo com modelos lineares generalizados mistos. Em relação à diversidade alfa, nossos resultados revelaram que o volume de necromassa, dominância de espécies e apenas descobertas se relacionaram com a riqueza de espécies. O tempo sem fogo, biomassa e solo descoberto tiveram relação positiva com a dominância, enquanto a informação do terreno, relação negativa. Por fim, a necromassa teve relação positiva com a dominância. O componente com maior contribuição para a diversidade beta foi a troca de espécies, que foi relacionada com necromassa, biomassa, profundidade do solo e cobertura da rocha.Nossos resultados indicam que tanto o fogo quanto os fatores ambientais locais estruturam as comunidades campestres. A relação negativa entre necromassa e riqueza de espécies indica que evita distúrbios, como fogo e pastejo, reduz indiretamente a diversidade campestre pelo acúmulo de necromassa. Ao mesmo tempo, fatores locais como profundidade do solo, afloramentos de rochas e características do terreno fornecem espaços diferentes para a ocorrência de novas espécies. Tal entendimento sobre padrões de diversidade e fatores estruturadores permitirá elaborar práticas de manejo mais adequadas à conservação da diversidade dos campos.
A comunicação da ciência e dos resultados obtidos pelo método científico, entre pesquisadores e pessoas não-especialistas, é um dever social. Pesquisas nas áreas de saúde e ambientais têm justificado a urgência de uma divulgação científica efetiva, já que consequências desastrosas podem ser amenizadas através de uma comunicação do conhecimento (e.g. efeitos da pandemia do COVID-19 e das mudanças climáticas). O programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração – Biodiversidade de Santa Catarina (PELD-BISC) desenvolve projetos que investigam a influência de fatores bióticos e abióticos sobre a biodiversidade, sendo que o impacto do manejo tradicional dos Campos de Altitude pelo gado e pelo fogo sobre a biodiversidade tem sido uma de suas frentes atuais de estudo. O objetivo deste Trabalho de Conclusão de Curso foi capacitar a autora na prática da divulgação da ciência, assim como fomentar a produção e a divulgação de conteúdo digital sobre as pesquisas desenvolvidas no âmbito do PELD-BISC. Para isso, foi formado um Comitê de Divulgação, que juntou estudantes da área de jornalismo, design e da biologia. Esse comitê trabalhou na sistematização para que fossem feitas postagens de materiais audiovisuais, os quais foram coletados em saídas de campo para a Serra Catarinense. Após a postagem de conteúdos por aproximadamente um ano, todos os parâmetros medidos (eg. alcance da conta, número de visualização dos vídeos, etc) obtiveram um aumento em seus números, entre eles o número de seguidores, com um aumento de 27,55% em relação ao começo da pesquisa. Mesmo com o aumento do alcance, engajamento e número de seguidores, não foi possível alcançar pessoas do interior de Santa Catarina, evidenciando a necessidade da continuação da divulgação científica e da criação de novas estratégias para que a comunicação da ciência seja feita de maneira efetiva.
Comunidades ecológicas são definidas pelo conjunto de organismos, de várias espécies, que habitam um local específico em um determinado tempo. Essas comunidades podem ser afetadas por diversos fatores ambientais, tais como cobertura de solo, disponibilidade de luz e fatores geográficos. Com as alterações ambientais geradas por ações humanas, cada vez mais tem se despertado a importância de ações de conservação ambiental e de pesquisa. Unidades de Conservação (UCs) como o Parque Nacional de São Joaquim (PNSJ) e o Parque Estadual da Serra Furada (PAESF), possuem grande importância para a conservação e pesquisa no estado de Santa Catarina. Ambos os parques estão inseridos na Mata Atlântica – uma região prioritária para conservação biológica. Dentro dessa realidade, projetos como o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa duração (PELD) e o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), vêm com a proposta de coletar e organizar informações sobre o meio ambiente de forma sistematizada e a longo prazo. Dados organizados e padronizados são de suma importância para as pesquisas, ainda mais de longa duração. Este trabalho visa fazer a caracterização das parcelas permanentes do PPBio-SC, organizando e unificando os dados abióticos, bem como descrever as parcelas e os módulos quanto à cobertura do solo (rocha, solo exposto, cobertura vegetal e serrapilheira), espessura da serrapilheira, abertura de dossel, altura máxima de dossel, profundidade do solo, altitude acima do nível do mar, exposição, declividade e localização geográfica. Os dados foram coletados em três módulos de pesquisas instalados em duas UCs: o PNSJ e o PAESF. Os dados ambientais foram coletados em 25 parcelas nesses módulos e, posteriormente, foram analisados neste trabalho. Como resultados, obtivemos um panorama geral dos módulos e fichas descritivas de cada uma das parcelas. O presente trabalho cumpre com o objetivo de caracterizar ambientalmente as parcelas e módulos do PPBio-SC, bem como organizar e disponibilizar os dados ambientais coletados.
Um dos principais componentes bióticos associado a áreas de campo, que desempenham importantes serviços ecossistêmicos, é a micobiota, um dos mais diversos grupos de organismos nos solos de ecossistemas naturais terrestres. Além de rica, a comunidade fúngica do solo é considerada mantenedora da saúde dos ecossistemas. Apesar disso, diversas formações de campo são negligenciadas no Brasil, como os Campos de Cima da Serra, que são formações associadas aos Campos Sulinos, no sul do Brasil. Por consequência, a micobiota do solo dessas formações ainda é totalmente desconhecida. Dessa maneira, o objetivo principal deste trabalho é caracterizar taxonomicamente e funcionalmente a micobiota do solo associado a áreas de Campos de Cima da Serra. Para isso, foram coletadas 36 amostras compostas de solo em áreas representativas da formação. As amostras foram submetidas a sequenciamento metagenômico shotgun livre de PCR, que pode enviesar a análise da micobiota recuperada. Ainda, as amostras de solo foram submetidas à caracterização físico-química para determinação de fatores edáficos. Foram geradas ao todo cerca de 150 mil sequências representantes da região ITS do rRNA ribossomal, que permitiram a identificação de 613 gêneros inseridos em 18 filos do reino Fungi. Destes, 245 gêneros estão presentes em todas as áreas amostradas, e portanto compõem a comunidade principal da micobiota dos Campos de Cima da Serra. Apesar das áreas amostradas apresentarem índices de diversidade alfa semelhantes, ordenações de escalonamento multidimensional não métrico apontam para comunidades distintas, sendo suas composições influenciadas principalmente pela área de coleta e teor de Mg em modelos de perMANOVA. Inesperadamente e em contraste com os padrões observados globalmente, a maioria dos fatores edáficos testados não influenciaram de maneira significativa a composição das comunidades recuperadas. As comunidades identificadas são dominadas por fungos saprotróficos, seguidos de simbiotróficos e patotróficos, apresentando homogeneidade na dominância destes grupos funcionais ao longo do espaço amostral, indicando redundância funcional da micobiota em escalas locais. Os resultados obtidos aqui revelam a grande diversidade de fungos associados aos solos dos Campos de Cima da Serra. Ainda, apontam para uma grande heterogeneidade em escala local na micobiota dessas áreas. Os dados gerados neste trabalho servem de base para a criação de estratégias de conservação e monitoramento dos Campos de Cima da Serra que possam levar em consideração a micobiota e os diferentes serviços ecossistêmicos que o grupo desempenha. Estudos futuros devem buscar entender quais outros fatores abióticos e bióticos podem influenciar a composição das comunidades fúngicas, assim como entender qual o papel ecossistêmico dos gêneros dominantes nesta formação. Trabalhos que foquem no entendimento do efeito das pressões historicamente aplicadas nos Campos de Cima da Serra também poderão avançar de maneira significativa no conhecimento necessário para a conservação desta formação e sua diversidade associada.
O melato é uma solução de carboidrato secretado por cochonilhas enquanto se alimentam do floema das plantas hospedeiras. O consumo de melato é uma interação estabelecida entre aves e cochonilhas em que o melato pode vir a ser a principal fonte de carboidratos consumidos pelas aves. Aqui descrevemos quais espécies de aves consomem melato produzido por cochonilhas (Hemiptera, Coccoidea) hospedeiras de Mimosa scabrella. Avaliamos a relação entre a disponibilidade de melato e a riqueza e diversidade de aves, e analisamos a contribuição de cada espécie para a diversidade beta (SCBD) em comunidades de aves no sul do Brasil. Localizamos 15 árvores focais e instalamos parcelas circulares (raio = 10 m) ao redor delas. Em cada parcela, contamos a densidade de árvores da espécie hospedeira e ainda a presença de melato em quatro zonas de altura em cada árvore destas como um indicador da disponibilidade de melato. Em seguida, observamos, identificamos e contamos as aves visitantes e de forma concomitante aos registros de consumo direto de melato ou dos insetos possivelmente atraídos pelo melato. Com um esforço amostral de 12 h/parcela (=180 h) Registramos 947 visitas de 39 espécies de aves, das quais 23 se alimentaram de melato e 16 de insetos. Alguns destes registros incluem novas espécies entre aquelas que utilizam esse recurso. No entanto, a riqueza de consumidores de melato diminui com o aumento da disponibilidade de melato e da densidade da árvore hospedeira. Leucochloris albicollis e Setophaga pitiayumi foram as espécies mais comuns e apresentaram valores baixos de SCBD. Isso sugere que tais espécies são oportunistas que dominam o melato como fonte de alimento, especialmente sob alta densidade de árvores hospedeiras. Como a baixa disponibilidade de recursos provavelmente não atrai as espécies mais especialistas e dominantes, a diversidade alfa e beta pode aumentar nessas condições. Por fim, mesmo que diversas aves consumam melato e algumas sejam dominantes, as diferenças locais no nível de disponibilidade parecem permitir que mais espécies acessem esse recurso.
A perda de habitats configura como uma das principais causas da perda global de biodiversidade. Além de levar a alterações na diversidade e composição de comunidades, resulta em prejuízos a processos ecológicos e serviços ecossistêmicos. A Hipótese da Quantidade de Habitat sugere que a diversidade taxonômica em unidades amostrais de mesmo tamanho está positivamente relacionada com a disponibilidade de habitat na paisagem local. Paralelamente, a perda de habitat pode levar à separação entre remanescentes florestais e corpos d?água (rios, riachos e lagoas), formando ?fragmentos secos?. Chamado de Separação de Habitats, este fenômeno pode afetar anfíbios que dependem do ambiente aquático para sua reprodução. A ocupação histórica, somada à alta diversidade e endemismo de anfíbios anuros, fazem da Mata Atlântica um bom modelo de estudo. Este trabalho buscou entender como a quantidade e separação de habitats afetam a riqueza e abundância de anfíbios anuros em uma paisagem fragmentada da Mata Atlântica catarinense. O trabalho foi realizado próximo à serra de SC, na região do Parque Nacional de São Joaquim. Entre os meses de outubro de 2022 e março de 2023, 20 parcelas florestais de 250m x 20m foram amostradas duas vezes, por 2 herpetólogos, por busca ativa visual e auditiva (diurna e noturna). Os anfíbios anuros encontrados foram identificados ao menor nível taxonômico possível e contabilizados. As parcelas selecionadas encontram-se a uma distância média de 1,9 km umas das outras, em remanescentes florestais que variam em termos de quantidade e separação de habitat na paisagem local. A porcentagem de cobertura florestal foi utilizada como parâmetro de quantidade de habitat e a porcentagem do comprimento total de corpos d?água que não se sobrepõe ao ambiente florestal foi utilizado como parâmetro de separação de habitats. Ambas foram calculadas em áreas circulares (buffers) a partir do centróide das parcelas (200 m à 2000 m), das quais foram identificadas a escala de efeito de cada variável para os parâmetros de diversidade. Espera-se uma relação positiva entre os parâmetros de diversidade e quantidade de habitat, enquanto para a separação de habitats espera-se uma relação negativa. Após garantirmos que não há multicolinearidade entre as variáveis preditoras, foram aplicados Modelos Lineares Generalizados (GLMs), com distribuição de erros ?Generalized Poisson? e Binomial Negativa, para entendermos os efeitos da quantidade e separação de habitats para riqueza e abundância, respectivamente. No total, foram registrados 422 indivíduos de 21 espécies e 7 famílias de anfíbios. A riqueza e abundância se mostraram negativamente relacionadas com a quantidade e separação de habitats na paisagem local, bem como a riqueza de espécies de anuros com larvas aquáticas. Nossos resultados sugerem que a separação de habitats pode afetar a diversidade de anfíbios anuros em apenas uma ou poucas gerações, especialmente para espécies que depositam suas larvas em rios e riachos, o que levanta a necessidade de proteção de zonas ripárias. Em contramão às expectativas, a aparente relação negativa entre os parâmetros de diversidade e cobertura florestal pode estar associada à maior permeabilidade da matriz rural e ao hábito de grande parte das espécies encontradas, que, apesar de terem predileção pelo ambiente florestal, podem se movimentar e ocupar áreas abertas na matriz antropizada. Por este motivo, espécies generalistas podem confundir o efeito da perda de floresta para a diversidade taxonômica do grupo, por serem menos sensíveis à perda de habitat.
Fatores climáticos influenciam o padrão temporal de atividade de vocalização dos anuros, a temperatura é um deles, como são animais ectotérmicos eles dependem da temperatura ambiente para que seu metabolismo funcione corretamente. Além disso, para que as espécies coexistam, e para as chances de encontrar um parceiro para a reprodução sejam maiores, é importante que exista uma variação temporal. Neste estudo analisamos o padrão temporal da atividade vocal de anuros de uma lagoa de altitude no Parque Nacional de São Joaquim (PNSJ). Gravações feitas de janeiro até setembro de 2021 com um gravador automatizado para gravar um minuto a cada 15, durante 24 horas por dia, que foi instalado em uma lagoa dentro do PNSJ, nos campos de Santa Bárbara na cidade de Urubici-SC foram analisadas através do espectrograma e ouvindo as gravações para detectar as espécies. Ao total foram registradas 15 espécies vocalizando no período analisado, sendo que foi encontrado mais riqueza de espécies nos meses quentes do que nos frios. Nos meses quentes o pico da atividade de vocalização estava concentrado no período noturno das 20hrs até a 1h aproximadamente. Mas nos meses frios isso mudou, e o pico de atividade de vocalização ocorreu durante o período do dia, das 10hrs até as 15hrs. Isso se deve ao fato de que temperaturas mais frias no inverno, principalmente à noite, inibem a atividade dos anuros, então eles acabam ficando mais ativos durante o dia, quando o sol aumenta as temperaturas.
O clima é um fator ambiental que influencia diretamente na distribuição e na ocorrência das espécies vegetais. Neste contexto, a temperatura é uma das variáveis de grande relevância em regiões montanhosas, uma vez que ela diminui gradativamente à medida que a altitude aumenta. Considerando o potencial de ocorrência de eventos de congelamento, como geadas e neve, locais mais elevados tendem a abrigar espécies vegetais que possuam adaptações estruturais e funcionais que lhes confira resistência a tais eventos. Portanto, espera-se que, em altitudes mais elevadas, as comunidades vegetais sejam diferentes daquelas em altitudes mais baixas, seja por substituição e/ou redução de espécies, ou por diferença na abundância relativa das espécies que conseguem existir ao longo do gradiente. O estado de Santa Catarina (SC), no sul do Brasil, apresenta grande variação altitudinal, com regiões sujeitas a ocorrência frequente de geada, o que possibilita a existência de diferentes tipos florestais, tanto com espécies arbóreas de climas mais quentes quanto de climas mais frios. Assim, a proposta deste trabalho foi criar um índice de congelamento capaz de representar a influência do congelamento na distribuição de espécies arbóreas no gradiente altitudinal em SC, testando duas hipóteses: i) existência de um limiar no gradiente altitudinal a partir do qual a maior parte das espécies de climas mais quentes é substituída pelas que ocorrem em temperaturas mais baixas; e ii) esse limiar altitudinal está associado à ocorrência de congelamento, que atua como filtro ambiental, dificultando o estabelecimento de espécies menos resistentes ao congelamento. Foram utilizados dois conjuntos de dados: 1) o Inventário Florístico Florestal de SC (IFFSC), com registro de 642 espécies em 422 Unidades Amostrais (UA); 2) dados horários de temperatura, do conjunto ERA5 Land, no período entre 1971 e 2022. A primeira hipótese foi testada através da análise de mudanças de diversidade beta ao longo do gradiente altitudinal. A hipótese (i) foi parcialmente confirmada, considerando a existência de um limiar altitudinal (900 m); no entanto, não se observou a substituição da maioria das espécies, e somente 20 espécies foram encontradas exclusivamente acima do limiar. Para testar a segunda hipótese, propuseram-se diferentes índices de congelamento a partir da ocorrência de eventos com temperaturas abaixo de 4ºC (a 2 m do solo). O índice de congelamento mais relevante para explicar a distribuição da vegetação leva em conta o quanto varia a sinergia entre duração e intensidade dos eventos com potencial ocorrência de congelamento. Isto sugere que as espécies distribuem-se mais de acordo com a variação na ocorrência de congelamento do que de acordo com condições de congelamento mais persistentes. Utilizando-se este índice corroborou-se parcialmente a segunda hipótese, uma vez que o aumento da variação da sinergia não corresponde a um aumento da altitude ao longo de todo o gradiente altitudinal. As maiores variações na sinergia ocorreram em níveis intermediários de altitude (~ 500 m), onde se localizam predominantemente Florestas Estacionais Deciduais (FED), com presença de espécies com características de resistência ao congelamento. Os índices de congelamento propostos neste trabalho mostraram-se úteis para a compreensão da distribuição espacial de espécies e servirão de base para futuros estudos, podendo ser utilizados como parâmetro para experimentos a nível de espécie, e aplicados a diferentes escalas espaciais.
Os anfíbios estão entre os vertebrados mais ameaçados do mundo. Cerca de 41% das espécies conhecidas apresentam algum risco de extinção. Uma das principais causas são as vigentes mudanças climáticas que alteram os fatores ambientais, tornando necessário monitorar as populações de anfíbios possivelmente ameaçados por essas mudanças. A espécie Boana poaju, endêmica da região da Serra do Tabuleiro, Santa Catarina, Brasil, é uma espécie que pouco se sabe sobre sua história natural e suas dinâmicas populacionais. Neste trabalho, buscamos compreender como os fatores ambientais afetam a abundância, sobrevivência, tamanho populacional dos adultos e investigamos o desenvolvimento embrionário e larval desta espécie. Para isso foram realizadas campanhas de busca ativa para monitorar os adultos e desovas em dois rios do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. Os adultos encontrados foram capturados, sexados, medidos, pesados, marcados e depois soltos nos locais encontrados. As desovas da espécie encontradas eram transportadas para uma gaiola in-situ e então eram visitadas diariamente para registrar o tempo de desenvolvimento e quantos girinos nasciam. Foram realizadas 42 campanhas de monitoramentos dos indivíduos adultos. No total foram encontrados 143 indivíduos adultos, com comprimento-rostro-cloacal médio de 41.65 ± 2.63 mm e peso médio de 4.53 ± 0.79 g. O modelo GLMM demonstrou que a temperatura do ar diária foi a variável mais significativa para a abundância, tendo uma relação positiva. O modelo Robusto previu que a probabilidade de sobrevivência dos indivíduos caísse para menos de 50% na passagem do verão para o outono, mas voltou a subir nas outras estações. O tamanho populacional apresentou flutuações, mas demonstrou estar crescendo. Durante o período do estudo foram encontradas seis desovas submersas no riacho a cerca de 7.54 cm ± 3.13 da superfície. A quantidade média de girinos eclodidos foi de 58.33 ± 9.1 girinos. O tempo médio de desenvolvimento embrionário foi de 12.50 dias ± 3.21. Acreditamos que o presente estudo tenha dado mais um passo para entender a história natural dos girinos de B. poaju e esperamos que os novos dados possam servir de subsídio para a definição do risco de extinção e conservação desta espécie.
A teoria de metacomunidades tem proporcionado grandes avanços em nossa compreensão dos processos que estruturam as comunidades biológicas ao longo do planeta. Estes avanços se devem, em parte, ao fato desta teoria reconhecer que as comunidades locais não são unidades discretas isoladas no espaço. Na verdade, os processos que ocorrem na escala local são também influenciados por um processo ocorrendo em escalas maiores: a dispersão. Apesar destes avanços, a maioria dos estudos empíricos de metacomunidades tem assumido que estas são temporalmente estáticas, o que raramente é observado na natureza. Fortes variações temporais têm sido relatadas nas comunidades de diferentes grupos biológicos e regiões, mas o papel dos processos de metacomunidades sobre estas variações permanece pouco explorado. Nesta dissertação, eu descrevo as variações espaço-temporais nas assembleias de morcegos de um gradiente elevacional no sul do Brasil, e proponho algumas explicações para tais variações à luz das predições da teoria de metacomunidades e do conhecimento disponível sobre a biologia do grupo. Morcegos foram amostrados em 14 sítios amostrais, no inverno de 2022 e no verão de 2023, utilizando redes de neblina e gravadores acústicos. Modelos hierárquicos foram então utilizados para unir os dados obtidos através dos dois métodos amostrais, e explorar as variações na abundância das espécies ao longo dos sítios amostrais e das estações. Tais modelos foram construídos de modo a considerar duas importantes questões: (i) indivíduos de uma espécie podem não ser detectados mesmo quando presentes, e a detectabilidade pode depender da temperatura; e (ii) espécies filogeneticamente mais próximas tendem a ser afetadas por variáveis ambientais de forma mais similar. Então, a partir das estimativas de abundância obtidas através destes modelos, nós calculamos métricas de diversidade alfa e beta, considerando diferentes dimensões espaço-temporais. Os resultados sugerem que a detectabilidade dos morcegos é afetada pela temperatura nos dois métodos amostrais, sendo consideravelmente maior nas noites mais quentes. Após incorporar estas incertezas nos modelos, a abundância da maioria das espécies mostrou depender da elevação e da estação do ano, de forma filogeneticamente conservada. Estas variações levaram a assembleias de morcegos que variam amplamente ao longo do espaço e do tempo, com valores de riqueza local que vão de 1 a 16 espécies, mas que se relacionam com a elevação de forma específica de cada estação. A maior parte das variações na estrutura das assembleias parece ser devido à seleção de nicho, processo que faz com que espécies com diferentes características ocupem diferentes porções do gradiente elevacional. Além disso, a deriva ecológica e a dispersão parecem ter também alguma importância. Particularmente, a dispersão emergiu como um processo importante para algumas espécies, ao interagir com as variações ambientais sazonais e permitir que estas espécies colonizem determinados sítios amostrais somente em determinadas estações do ano. Para além destas descobertas, nossos resultados também fornecem alguma base teórica para ações mais aplicadas de conservação. Especificamente, nós identificamos algumas espécies especialistas em áreas mais altas e frias do gradiente, que podem estar ameaçadas devido às atuais taxas de mudanças no clima. Com tudo isso, nós concluímos que a teoria de metacomunidades fornece um bom arcabouço teórico para o entendimento das variações espaço-temporais das assembleias de morcegos de gradientes elevacionais, e que pode ser de grande utilidade em trabalhos futuros, bem como em ações conservacionistas.
Este estudo descreve a comunidade de formigas em uma área de Floresta Ombrófila Densa (FOD) da Mata Atlântica, na encosta da Serra Geral, localizada na mesorregião sul do estado de Santa Catarina. O objetivo geral foi inventariar a área de FOD na encosta da Serra Geral. Além deste, quatro objetivos específicos foram estabelecidos: (1) produzir uma lista de espécies de formigas da FOD na encosta da Serra Geral; (2) comparar três métodos de coleta em termos de riqueza de espécies de formigas; (3) comparar a riqueza de espécies de formigas em uma escala local (ponto amostral) e em uma escala mais ampla (parcelas); (4) testar a hipótese de que são encontradas mais espécies de formigas arbóreas na FOD do que na Floresta Ombrófila Mista (FOM). As coletas foram realizadas em 50 pontos amostrais distribuídos em 10 parcelas. Em cada ponto foram instaladas armadilhas de queda no solo e na vegetação, e coletados 1m² de serrapilheira para ser processada em extratores de "Winkler". No total foram coletadas 107 espécies de formigas, distribuídas em 39 gêneros e oito subfamílias. Duas espécies (Fulakora cf. agostii e Poneracantha menozzii) foram registradas pela primeira vez para o estado de Santa Catarina e 32 novas espécies tiveram o primeiro registro para a mesorregião Sul do estado. A técnica de coleta que registrou o maior número de espécies foi o extrator de "Winkler". A riqueza de espécies de formigas diferiu entre as parcelas, apresentando mais variação do que entre os pontos amostrais. Por fim, evidenciamos que a proporção de registro de espécies arborícolas na FOD é maior em relação à proporção de registros de espécies arborícolas na FOM (os dados da FOM são do estudo de Klunk et al., 2018). O presente estudo trouxe conhecimentos sobre a comunidade de formigas de uma área de FOD de encosta da Serra Geral catarinense, um importante refúgio da biodiversidade da Mata Atlântica, ecossistema ameaçado por diversas ações antrópicas.
Desde o início do Século XIX até os dias atuais, a busca por entender como a biodiversidade está organizada de forma espacial e temporal tem sido um dos principais desafios na ecologia e na biogeografia. Por exemplo, apesar de sabermos que a diversidade varia ao longo dos gradientes elevacionais, os mecanismos subjacentes aos padrões de distribuição das espécies ainda são pouco conhecidos, principalmente ao longo das regiões tropicais e subtropicais. No presente trabalho utilizei então os anfíbios anuros como organismos modelo para tentar entender como se dão os processos de estruturação e formação das assembleias encontradas ao longo de um gradiente elevacional localizado na porção subtropical da Mata Atlântica brasileira. No primeiro capítulo, busquei investigar o padrão geral da distribuição da diversidade, bem como a variação na composição das assembleias de anuros ao longo desse gradiente. Adicionalmente, avaliei como que as características espaciais e ambientais estão relacionadas com os padrões observados. No segundo capítulo, investiguei como a sazonalidade climática típica da região subtropical poderia estar relacionada com os padrões de diversidade observados, tentando entender especificamente o papel da variação da temperatura nesse sistema. Os resultados aqui apresentados revelam que os padrões de distribuição de anuros ao longo de gradientes elevacionais da Mata Atlântica estão relacionados com a variação da temperatura, bem como com a quantidade de remanescentes de habitats naturais. Também que a sazonalidade exerce um papel importante na estruturação das assembleias ao longo do gradiente elevacional, reforçando a influência das adaptações fisiológicas das espécies de anuros na determinação dos padrões de diversidade observados. Tendo em vista que a variação da temperatura média se mostrou um fator chave na estruturação das assembleias de anuros, esses resultados podem ser utilizados no desenvolvimento de estratégias de conservação mais efetivas frente às mudanças climáticas globais. Assim, esse estudo contribui para o melhor entendimento dos padrões de distribuição da biodiversidade, e reforça a importância dos ambientes montanos para a manutenção da mesma.
Os fungos são organismos megadiversos e com uma variedade enorme de formas. Dentre estes, aqueles que apresentam estruturas reprodutivas macroscópicas são chamados macrofungos. Apesar de seu longo histórico de pesquisa se comparado a outros grupos do reino Fungi, estima-se que menos da metade das espécies de macrofungos sejam conhecidas, especialmente nas regiões tropicais, incluindo o Brasil. No sul do país, uma região que chama muita atenção por sua beleza cênica é a dos Aparados da Serra, uma área que apresenta ecossitstemas frágeis e carente de pesquisas com fungos. Este trabalho teve como objetivos acessar a diversidade de macrofungos da região dos Aparados da Serra a partir de expedições de coletas de espécimes e identificação morfológica, e eventualmente molecular, dos mesmos, e de compreender o estado de conservação das espécies lá encontradas de acordo com os critérios da IUCN. Foram analisados 241 espécimes, representando 120 espécies. Desses, 45 são novos registros para a região dos Aparados, 23 são novos registros para o estado de Santa Catarina e seis são novos registros para o Rio Grande do Sul. O número de espécies de macrofungos dos Aparados passou de 120 para 205 espécies, representando um aumento de quase 70% no número de espécies. Os gêneros Pleurotopsis e Rhizomarasmius, assim como a espécie Ceriporia straminea são novos registros para o Brasil e Hymenochaete cf. cruenta é um potencial novo registro para o país. Os gêneros Coronicium e Vuilleminia são registrados pela primeira vez na América do Sul. No total, 26 táxons representam possíveis novidades taxonômicas, e quatro estão em preparação para publicação: Resinomycena pleurotoides, Rhizomarasmius amylosetae, Sidera araucariae e Stereum gloeocystidiatum. Em termos de conservação, 127 espécies foram preliminarmente avaliadas, sendo 108 delas consideradas como Pouco Preocupantes, 13 Vulneráveis, três Quase Ameaçadas e três como Dados Deficientes. As espécies Fomitiporia nubicola, Laetiporus squalidus e Meruliopsis cystidiata tiveram seus estados de conservação reavaliados, e a primeira passou de Vulnerável para Em Perigo. Apesar do aumento significativo no número de registros, nesse trabalho foram analisadas apenas uma fração dos materiais coletados durante as expedições aos Aparados, o que significa que ainda resta uma grande diversidade inexplorada, e que precisa ser estudada em trabalhos futuros.
A Floresta Ombrófila Densa no Estado de Santa Catarina foi intensamente explorada e fragmentada o que incrementou a ação de filtros ambientais sobre a montagem de assembleias de mamíferos de médio e grande porte. O processo de montagem de comunidades é influenciado por características ambientais, capacidade de dispersão e dinâmicas internas, como as interações entre espécies e seus atributos funcionais. Assim, em um ambiente insularizado - como a Ilha de Santa Catarina - comparado às áreas de maior conectividade - no continente próximo - o efeito-resgate é prejudicado, comprometendo a estruturação das assembleias. Espécies sensíveis à alteração ambiental são as mais impactadas, tornando-se suscetíveis à extinção local. Assim, considerando a fragmentação em áreas de Floresta Ombrófila Densa e o processo de defaunação, é necessário avaliar se o isolamento afeta mais a composição da assembleia de mamíferos de médio e grande porte devido a influência no efeito-resgate e pressão sobre as características funcionais das espécies. Entre os anos de 2005 e 2022, com um esforço de amostragem de 14.434 armadilhas-dia correspondente a critérios espaciais (1 km entre pontos de amostragem em uma mesma área) e temporais (no mínimo 30 dias de amostragem em cada estação do ano), foram obtidos 3.851 registros independentes diários de mamíferos de médio e grande porte em 14 áreas de Floresta Ombrófila Densa do Estado de Santa Catarina, em região continental e insular (Ilha de Santa Catarina). Através da análise RLQ - utilizando três matrizes de variáveis (R: ambientais, L: abundância e Q: funcionais) para identificar as variáveis que mais contribuem na ordenação de áreas e espécies -investiguei as diferenças de composição das assembleias de mamíferos. Também, utilizei a análise do Quarto-Canto para avaliar a significância das variáveis na análise RLQ e da associação entre variáveis ambientais e funcionais. Um total de 27 espécies foi registrado nas áreas de estudo (de duas a 16 espécies por área), sendo Dasyprocta azarae e Didelphis aurita as espécies dominantes em ambientes insularizados e Dasypus novemcinctus e Cerdocyon thous em áreas mais preservadas. A ordenação obtida na RLQ demonstrou que em ambientes defaunados a insularização e sensibilidade são os fatores que mais influenciam na estruturação das assembleias, reafirmado pela significância das variáveis descritivas da paisagem e variáveis funcionais na distribuição das espécies. A diferença de composição de ambientes insularizados versus ambientes com maior conectividade foi demonstrada pelas associações significativas, sendo que condições tróficas (carnívoros e mamíferos de maior massa, em sua maioria espécies sensíveis) estão relacionadas positivamente com características que indicam maior preservação, enquanto defaunação e áreas alteradas se relacionam negativamente. Contudo, a dominância de Dasyprocta azarae, uma espécie classificada como sensível a alteração ambiental, em áreas insularizadas livre de predadores estritos demonstrou-se resiliente aos filtros ambientais. Compreender os traços funcionais das espécies que permitem a persistência em ambientes insularizados, possibilita a identificação de padrões de montagem de assembleias em ambientes defaunados colaborando para ações de conservação e manejo.
O objetivo do nosso Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) é criar um plano de comunicação para o projeto de pesquisa de longa duração intitulado "Programa Ecológico de Longa Duração de Pesquisas em Biodiversidade de Santa Catarina (PELD BISC): investigando a ecologia histórica e os efeitos de manejo para restauração e conservação da Mata Atlântica do Sul do Brasil", da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), . Através da elaboração de um diagnóstico da situação atual da comunicação do projeto, desenvolvemos estratégias de comunicação - desde assessoria de imprensa a gestão de redes sociais -, sempre com foco na comunicação pública da ciência. Além de executar as estratégias no período de desenvolvimento do nosso TCC, também pretendemos deixar consolidado um planejamento de redes sociais que possa ser seguido pelos integrantes do PELD BISC mesmo após a conclusão do nosso trabalho acadêmico em março de 2022. Durante o TCC, identificamos quais as melhores estratégias para divulgar os trabalhos de pesquisa executados pelo programa nos dois módulos em que ele atua: o Parque Nacional de São Joaquim (PNSJ), que abrange as cidades de Bom Jardim da Serra, Grão-Pará, Lauro Müller, Orleans e Urubici, e o Parque Estadual da Serra Furada (PAESF), localizado entre Orleans e Grão-Pará. Entre as possibilidades, está a atuação em atividades relacionadas à assessoria de imprensa, abrangendo desde veículos nacionais até os regionais das localidades onde os parques estão inseridos, sempre com foco na divulgação científica. Nas redes sociais, queremos aumentar o engajamento das publicações do Programa, de forma que as pesquisas realizadas pelo PELD cheguem ao público alvo desejado.
A comunicação acústica em anfíbios é um dos passos mais importantes para a reprodução. Além de ser um mecanismo primário de seleção sexual, é essencial para o reconhecimento espécie-especifico e passa informações biológicas específicas de cada indivíduo. Variações nos cantos de anúncio ao longo de gradientes altitudinais já foram encontradas para algumas espécies e diferentes fatores abióticos e bióticos podem ser usados para explicar alguns padrões, como temperatura, tamanho corporal, condição corporal e a própria interação intra e interespecífica entre os machos. A partir disso, e utilizando uma espécie de anfíbio amplamente distribuída pela Mata Atlântica, os dois principais objetivos deste estudo foram responder as seguintes perguntas: o canto de anúncio de Boana bischoffi varia ao longo de um gradiente altitudinal? Se sim, quais fatores ambientais são responsáveis por gerar essas variações? Para isso, foram amostradas 14 lagoas distribuídas ao longo de um gradiente de altitude (383,88 a 1444,13 metros) do Parque Nacional de São Joaquim, região serrana do estado de Santa Catarina. Os machos em atividade de vocalização foram gravados, medidos, pesados, marcados e posteriormente soltos no mesmo local. Após o término de cada gravação também foi medida a temperatura do ar. Além disso, a temperatura média anual para cada lagoa foi extraída do banco de dados WorldClim 2.1. O canto dessa espécie é descrito na literatura como sendo composto por duas notas distintas, sendo considerado um canto complexo. Foram analisados quatro parâmetros temporais e dois espectrais: (1) duração do grupo de notas secundárias; (2) intervalo entre as notas primárias e secundárias; (3) duração das notas primárias; (4) frequência 95% das notas primárias; (5) frequência dominante das notas primárias e (6) duração do canto. A estimativa da condição corporal individual foi feita através do Índice de Massa Escalonada. Para a abundância relativa dos machos coespecíficos, foi utilizado o sistema de ranqueamento do Programa de Monitoramento de Anfíbios da América do Norte (NAAMP). A riqueza de espécies de anfíbios foi estimada através das gravações. Para as análises estatísticas, foram construídos Modelos Lineares Generalizados Mistos (GLMMs) tanto para a primeira quanto para a segunda pergunta. Foram construídos sete modelos para os testes de hipóteses e posterior seleção através do Critério de Informação de Akaike corrigido para amostras pequenas (AICc). Como resultados, foram gravados e analisados 124 indivíduos focais. Dentre os quatro parâmetros temporais, dois tiveram relação positiva com a altitude (?duração do grupo de notas secundárias? e ?duração das notas primárias?). E dentre os dois espectrais, somente um teve uma relação negativa (?frequência 95% das notas primárias?). Embora isso não tenha acontecido para todos os parâmetros acústicos, é possível dizer que o canto de anúncio varia ao longo do gradiente altitudinal amostrado. Os resultados dos testes de hipótese mostraram que as variáveis preditoras utilizadas não explicam realmente as variações nos parâmetros acústicos. Ainda assim, alguns modelos demonstraram que temperatura média anual, tamanho corporal e abundância relativa de machos coespecíficos vocalizando ao mesmo tempo parecem se relacionar de alguma forma com o canto dessa espécie. Por ter reprodução prolongada e ser generalista em relação ao ambiente de reprodução, as pressões seletivas podem agir de forma diferente para esta espécie. Além disso, pouco se sabe sobre a motivação individual dos machos e a preferência das fêmeas, fatores que podem ser mais importantes moldando o canto de anúncio dessa espécie do que os testados aqui.
A estrutura das comunidades de anfíbios é fortemente influenciada por fatores abióticos, como a temperatura. Seus efeitos têm sido associados tanto às variações em parâmetros diários das vocalizações emitidas por machos, como na fenologia reprodutiva de diferentes espécies, o que consequentemente influencia a estrutura de suas comunidades. Neste sentido, nós investigamos as respostas das comunidades de anuros de lagoas ao longo de um gradiente elevacional da Serra Geral, Sul do Brasil. Especificamente, investigamos a estrutura das comunidades, os padrões fenológicos anuais e a variação de temperatura associada à atividade diária de vocalização em lagoas sob diferentes condições de temperatura. De agosto de 2019 a dezembro de 2020 gravadores automatizados foram instalados e programados para coletar gravações em três lagoas localizadas nos municípios de Orleans, Urubici e Rancho Queimado. Os gravadores foram programados para registrar um minuto a cada 15, 24h por dia. As análises das gravações foram feitas manualmente, sendo considerado uma noite por semana, considerando como intervalo amostral entre 17:00 horas de um dia às 3:45 horas da madrugada do dia seguinte. Em cada gravação, as espécies foram identificadas e um índice relativo de intensidade de canto foi atribuído. Neste estudo foram registradas 30 espécies, com sete destas sendo comum às três lagoas. Em relação a amplitude térmica das lagoas, Urubici teve a menor mediana de temperatura. Ao investigar a influência da temperatura na atividade vocal das sete espécies que ocorrem nas três lagoas, não encontramos influência na atividade de canto quando a intensidade era baixa (um ou alguns poucos indivíduos vocalizando), exceto em quatro espécies que sofreram influência da temperatura em lagoas específicas. A variável que influenciou de modo geral a intensidade de cantos foi a hora do dia, com a probabilidade de emissão de cantos aumentando ao longo da noite, com um pico de probabilidade entre às 22:00 horas até à 00:00 horas, o dia do ano influenciou a atividade de canto para quatro espécies de forma específica. Já para a intensidade de atividade alta (cantos em coro), a temperatura e a hora do dia influenciaram a probabilidade de início da formação do coro para três espécies, indicando que em temperaturas mais altas elas tendem a aumentar a sua atividade e produzir vocalização em coros. A hora do dia influenciou de forma geral Boana bischoffi, mostrando que conforme o horário avança aumenta a probabilidade de produzir cantos em coro nas três lagoas em que ocorre.
Os ambientes montanhosos correspondem a 25% da superfície terrestre, mas proporcionalmente sua biodiversidade é subamostrada, principalmente nas elevações altas. Esta carência de conhecimento dificulta a avaliação mais ampla das possíveis mudanças nos padrões de distribuição das espécies frente a alterações climáticas e ambientais. Segundo a Teoria Metabólica Ecológica (TME), o aumento da diversidade de espécies em um determinado local está positivamente relacionado com a temperatura, indicando que este fator climático é um dos mais importantes promotores de diversidade local. A produtividade primária é outro fator climático relacionado a diversidade, onde ambientes com maior produtividade primária abrigam maior diversidade de espécies. Este estudo investiga as prováveis relações da variação climática (e.g. temperatura, produtividade) e topográfica (e.g. elevação) sobre a diversidade e estrutura das comunidades de anfíbios da porção sul da Mata Atlântica. As amostragens dos anfíbios foram feitas em janeiro, fevereiro e março de 2020 e 2021 em 20 parcelas terrestres de 0,5 ha, distribuídas ao longo de um gradiente altitudinal que abrange o Parque Estadual da Serra Furada e Parque Nacional de São Joaquim. Foram utilizadas 20 parcelas, sendo 10 parcelas instaladas entre 300 e 800 m a.s.l. e a outra metade entre 800 a 1.820 m a.s.l. As variáveis climáticas (temperatura média anual (TMA); temperatura mínima do mês mais frio (TMMF); variação anual de temperatura (VAT) e normalized difference vegetation index (NDVI) e topográficas (elevação (ELE)) foram extraídas da base de dados do WorldClim e Copernicus Global Land Service. Foram registrados 206 indivíduos, representando 24 espécies distribuídas em 8 famílias de anuros. A riqueza e abundância apresentaram uma relação positiva significativa com a temperatura, sendo melhor explicadas pelo modelo utilizando a TMMF, indicando que as condições mais extremas de temperatura de elevações altas podem estar atuando como filtro ambiental. Ainda, segundo o modelo utilizando a variável NDVI, áreas com maior produtividade foram associadas positivamente com a maior abundância e riqueza de anfíbios, indicando que áreas abaixo de 800 m a.s.l. foram mais diversas em razão da maior disponibilidade e diversidade de recursos. A elevação apresentou uma relação negativa com a riqueza e abundância, além de demonstrar que a composição de espécies é diferente entre assembleias abaixo e acima de 800 m a.s.l. A diversidade beta e o componente de turnover apresentaram uma relação positiva com o aumento da distância elevacional, geográfica e ambiental, indicando que as variações ambientais são um importante fator para a estruturação das comunidades no nosso sistema de estudo. Nossos resultados demonstram a importância da conservação de áreas que abrangem todo o gradiente altitudinal, incluindo áreas de conexão entre elas, uma vez que as assembleias apresentam composições de espécies distintas e de distribuição restrita ao longo do gradiente de elevação.
A família Corethrellidae (Diptera, Corethrella Coquillet) é exclusivamente hematófaga de anfíbios anuros e ocorre nas regiões tropicais e subtropicais. A peculiaridade desse grupo é que as fêmeas localizam hospedeiros pelo som, sendo atraídas pelas vocalizações de anfíbios anuros. O método clássico para captura de Corethrella consiste no uso de armadilhas tipo Center Disease Control (CDC), na qual a lâmpada é substituída por um aparelho de som emitindo vocalizações. O objetivo principal deste trabalho foi avaliar um novo método para captura de Corethrella, comparando sua eficiência com a CDC. O novo método pode ser nomeado como armadilhas BAC (Bandeja Acoplada à Caixa de Som), que são bandejas plásticas com água e algumas gotas de detergente, tendo um aparelho de som suspenso emitindo vocalizações de anuros. Realizamos dois experimentos em três Unidades de Conservação de Santa Catarina, nas quais foram dispostas armadilhas BACS emitindo vocalizações de anfíbios anuros em um aparelho de som. Nosso experimento 1 comparou a eficiência entre o método CDC modificado e o novo método BACs no Parque Municipal da Lagoa do Peri - Florianópolis (SC). Neste experimento, totalizou-se 35h de esforço amostral por tipo de armadilha. As armadilhas BACS capturaram aproximadamente vinte vezes mais indivíduos que as CDC (n=1594; n=72; respectivamente), e o mesmo número de espécies (n=3), demonstrando que as BACS são mais eficientes que as CDC, além de serem mais baratas e práticas. Nosso segundo experimento teve como objetivo aplicar o método em duas Unidades de Conservação, no Parque Nacional de São Joaquim (PNSJ; SC) e no Parque Estadual da Serra Furada (PAEST; SC) e comparar a atratividade de três espécies de anfíbios anuros. Realizou-se duas campanhas onde três lagoas foram amostradas, totalizando 18 horas de esforço de captura. Instalou-se em cada lagoa três armadilhas de bandejas acopladas à caixa de som (BACs), emitindo vocalizações de Physalaemus cuvieri, Leptodacylus latrans e Boana faber, anuros comumente encontradas nessas regiões e ao longo da Mata Atlântica. Foram coletados 128 indivíduos de Corethrella pertencentes à duas espécies no PAEST, enquanto para o PNSJ foram coletados 34 indivíduos de apenas uma espécie. Nossos resultados registraram pela primeira vez da espécie C. atricornis para Santa Catarina, além de expandirmos a distribuição altitudinal de Corethrella borkenti para o Estado. Também, demonstramos que a atratividade das vocalizações variou, sendo a vocalização de Leptodactylus latrans a mais atrativa em nosso estudo. Nossos resultados indicaram que a presença do anuro no local não influencia na atratividade das armadilhas. Com a união destes resultados, esperamos que o novo método proposto viabilize a expansão dos estudos com Corethrella, a fim de melhorarmos o conhecimento dessa interação ainda pouco compreendida.
Investigamos como os distúrbios causados pelo manejo com pastejo e fogo podem alterar a estrutura populacional de araucária (Araucaria angustifolia, Araucariaceae) e, assim, o avanço da floresta sobre o campo na região altomontana do Sul do Brasil. Avaliamos a resposta da estrutura populacional de araucária em três tipos de habitats (floresta, arbustal e campo) e dois tipos de manejo (com ou sem pastejo e fogo). Para a amostragem das populações, alocamos 40 transeções de 100 x 4 m, 18 com pastejo e fogo e 22 onde esses distúrbios são impedidos (Parque Nacional de São Joaquim). Metade da extensão de cada transeção se localizava floresta adentro, e a outra metade, em extensões variáveis de habitats mais abertos de arbustal ou campo. Analisamos a abertura do dossel, e a estrutura das populações e a densidade de indivíduos de araucária. No total, amostramos 570 indivíduos de araucária, sendo 339 plântulas, 59 juvenis I, 44 juvenis II e 128 adultos. A abertura do dossel diferiu entre os habitats e entre os tipos de manejo, com maiores aberturas no arbustal e campo de áreas com pastejo e fogo. A estrutura populacional diferiu entre habitats e entre tipos de manejo e entre os mesmos habitats mas sob tipos de manejo distintos. A densidade populacional total foi 35,9% maior em áreas sob pastejo e fogo, o que pode estar relacionado com a maior abertura do dossel encontrada nessas áreas, especialmente nos habitats de campo e arbustal. Ao comparar habitats em diferentes tipos de manejo, encontramos 40% mais adultos na floresta que nos outros habitats e no arbustal e campo quase seis vezes mais plântulas em áreas sob pastejo e fogo. Estes resultados sugerem que a expansão da floresta deve ocorrer de forma muito lenta em áreas com manejo via pastejo e fogo porque as araucárias raramente ultrapassam o estágio de plântula nos campos e arbustais nessas condições. Por outro lado, onde esses distúrbios são interrompidos, as plântulas podem se estabelecer nas áreas abertas como campos e arbustais, de forma que o processo de expansão da floresta sobre habitats abertos se torna possível. Assim, os distúrbios causados pelos diferentes tipos de manejo alteram não somente a estrutura populacional e a distribuição de araucária, mas também o processo de expansão da floresta sobre o campo.
O gênero Hymenochaete é caracterizado por apresentar ampla variação morfológica, a qual abrange basidiomas ressupinados, efuso-reflexos, pileados e estipitados, sazonais a perenes, himenóforo liso, denteado ou poroide, em diferentes tonalidades de marrom. A maioria das espécies apresenta sistema hifal monomítico, basídios clavados e, tetraesporados, basidiósporos elipsoides, lisos, IKI-, setas himeniais presentes, formando a camada de setas e em alguns casos a camada do córtex e/ou do contexto estão presentes. O gênero apresenta distribuição cosmopolita, cresce em madeira viva e morta, causando podridão branca e pode ser encontrado também no solo e em serrapilheira. Para a Região Sul do Brasil, são citadas a ocorrência de 27 espécies, das quais, a maior parte tem seus materiais de referência (holótipos) de regiões geograficamente muito distantes. Este trabalho tem como objetivo principal contribuir para o entendimento das relações filogenéticas do gênero Hymenochaete e de suas espécies, bem como testar a delimitação dos táxons estudados a partir de uma abordagem integrativa. Ao todo, foram revisados morfologicamente 101 espécimes, os quais representam 25 táxons. Dentre estes, estão 11 novidades científicas do gênero Hymenochaete, cinco espécies já descritas, quatro identificações de espécies que precisam ser confirmadas e cinco morfoespécies foram determinadas até o nível de gênero. Foram obtidas 48 sequências (ITS e LSU) e os resultados das análises filogenéticas moleculares corroboram a posição dos espécimes testados como pertencentes ao gênero Hymenochaete e Hydnoporia, representando três espécies novas do gênero Hymenochaete e uma espécie do gênero Hydnoporia. Esse é o primeiro estudo sistemático, a partir de análises filogenéticas moleculares, que se propõe a testar algumas das hipóteses morfológicas das espécies de Hymenochaete com registro de ocorrência no sul da Mata Atlântica e o primeiro estudo que testa o posicionamento destas espécies, em relação a todas as espécies do gênero, com sequências disponíveis até o momento e em relação ao gênero Hydnoporia. Descrições morfológicas, notas e imagens para as espécies estudadas são apresentadas.
A temperatura é um fator importante na regulação das taxas metabólicas dos organismos, podendo influenciar diretamente o tamanho corporal final dos indivíduos. Essa relação pode ser explicada pela Regra de Bergmann, que prediz que animais maiores serão mais adaptados a climas frios, e pela Regra de temperatura-tamanho, que prediz que a temperatura afeta as taxas de crescimento e desenvolvimento dos indivíduos, levando a tamanhos corporais maiores nos locais de clima frio. Regiões montanhosas contribuem para estudos nessas áreas, devido a um gradiente de variação na temperatura. Os anfíbios são um dos grupos mais sensíveis às variações climáticas e padrões de variação no tamanho corporal já foram demonstrados para alguns organismos. Entretanto, a questão ainda se mantém aberta já que diferentes padrões foram encontrados para diferentes organismos e locais. Além do tamanho corporal, as variações na temperatura podem influenciar aspectos reprodutivos, como a emissão de sinais acústicos pelos machos distribuídos em diferentes localidades. Sabendo disso, hipotetizamos que as baixas temperaturas terão um efeito na taxa de desenvolvimento e crescimento da espécie Boana bischoffi levando a tamanhos corporais médios maiores em altitudes mais elevadas. Além disso, a duração dos cantos de anúncio dos machos aumentará em altitudes elevadas e a frequência dominante do canto será menor. O presente estudo foi realizado em 23 lagoas distribuídas no gradiente de altitude do Parque Nacional de São Joaquim. Os indivíduos tiveram seu canto gravado e comprimento rostro-cloacal medido. Todos os capturados foram marcados e soltos no mesmo local. Foram medidos os parâmetros acústicos duração do canto e frequência dominante. Utilizamos modelos aditivos generalizados para testar a relação entre a altitude e temperatura do ar com o tamanho corporal a cantos de anúncio dos machos. Como resultado, foram capturados 253 machos, destes 33 tiveram seus cantos gravados. Concluímos que a espécie B. bischoffi não segue os padrões propostos pela regra de Bergmann e regra de temperatura-tamanho, já que maiores tamanhos corporais foram encontrados em altitudes intermediárias. A temperatura do ar do dia teve uma relação negativa com a duração dos cantos e a altitude teve um efeito significativo na frequência dominante, com os machos de altitudes intermediárias vocalizando em frequências mais altas. Esses resultados são importantes para entendermos cada vez melhor de como as mudanças climáticas representam um fator importante para as variações intraespecíficas em anfíbios.
Os fungos poliporoides são um importante grupo do reino Fungi associados a substratos lígneos que desempenha funções essenciais em ecossistemas naturais. O conhecimento da diversidade de fungos poliporoides em Santa Catarina está em crescimento, mas ainda existem regiões e fitofisionomias pouco exploradas no estado, como é o caso das vegetações de altitude. Entre estas estão as Florestas Nebulares e os Campos de Altitude, vegetações que compreendem uma composição biológica única ao mesmo tempo que sofrem perda de habitat por ações antrópicas. O presente trabalho teve como objetivo estudar as comunidades de macrofungos poliporoides das vegetações de altitude do Parque Nacional de São Joaquim no estado de Santa Catarina. Foram realizadas expedições a campo em regiões de Floresta Nebular e Campos de Altitude no PNSJ, bem como revisados materiais de herbário coletados nesta Unidade de Conservação. Os espécimes coletados formam desidratados e identificados através de características macro e microscópicas e comparação com chaves de identificação e descrições na literatura. Materiais de interesse foram selecionados para a amplificação de regiões do DNA, ITS e nrLSU, e estes dados também foram utilizados na identificação das espécies e estudo de suas relações filogenéticas. Foi estudado um total de 96 espécimes de fungos poliporoides pertencentes a 35 espécies e uma morfoespécie não identificada. Seis espécies são registradas pela primeira vez no Brasil: Arambarria destruens, Aurantiporus mayaensis, Auriporia aurulenta, Bondarzewia guaitecasensis, Ceriporia reticula e Xylodon raduloides; e além destas quatro espécies são novos registros para o território catarinense. Notas taxonômicas de todas as espécies são apresentadas. Durante as análises morfológicas e filogenéticas moleculares foram observadas evidências de táxons novos para a ciência, e a partir deste resultado Fuscoporia inonotoides é proposta como uma nova espécie em um capítulo, enquanto em outro capítulo uma espécie do gênero Cyanosporus pertencente a um complexo taxonômico tem sua identidade discutida. As demais possíveis novidades científicas ainda demandam mais coletas ou estudos mais aprofundados. Este trabalho é uma das primeiras frentes de estudos de fungos das Florestas Nebulares do Sul do Brasil, e a partir destes resultados torna-se evidente que existe uma comunidade de fungos distinta nas Florestas Nebulares da Serra Catarinense em relação às demais regiões do estado e do país. Ainda assim observa-se que muitos táxons examinados aqui ainda precisam de mais informações e estudos, enquanto outros aguardam para serem descobertos.