Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) trouxe novas evidências sobre o papel do fogo na conservação dos Campos de Altitude do Sul do Brasil. Ao contrário do que se costuma imaginar, a ausência prolongada de queimadas pode reduzir a diversidade de plantas herbáceas e aumentar o risco de incêndios catastróficos.
A pesquisa é resultado da dissertação de mestrado de Sofia Casali, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFSC, com financiamento do CNPq e da FAPESC. Os resultados foram publicados na revista científica Plant Ecology e fazem parte do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração da Biodiversidade de Santa Catarina (PELD-BISC).

A pesquisadora Sofia Casali amostrando área sem fogo por quatro
anos, com alta presença de biomassa seca. (Foto: Sophia Kusterko).
O trabalho foi realizado no Parque Nacional de São Joaquim, na Serra Catarinense, onde a equipe analisou 336 parcelas de vegetação considerando 32 anos de histórico de queimadas. Foram avaliadas a riqueza de espécies, a dominância vegetal, o acúmulo de biomassa morta e fatores ambientais como solo e topografia. Os dados indicam que, quanto mais tempo uma área permanece sem fogo, maior é a dominância de poucas espécies, sobretudo gramíneas, que acabam ocupando grande parte do ambiente e dificultando o estabelecimento de outras plantas.
Segundo Sofia Casali, o fogo faz parte da dinâmica natural desses campos há muito tempo, mas seu regime vem sendo alterado pela supressão sistemática. A ausência prolongada de queimadas favorece o acúmulo de biomassa seca, que tanto reduz o rebrote de outras espécies quanto aumenta o risco de incêndios mais severos. A topografia também influenciou os resultados: áreas mais íngremes apresentaram menor dominância vegetal, possivelmente pela menor disponibilidade de nutrientes para espécies altamente competitivas.
Os Campos de Altitude constituem um ecossistema raro e ameaçado, historicamente moldado por distúrbios naturais como o fogo e o pastejo de grandes herbívoros hoje extintos.

Paisagem dos Campos de Altitude no Sul do Brasil, no Parque Nacional de São Joaquim (SC) (Foto: Sofia Casali).
Para o pesquisador Eduardo Luís Hettwer Giehl, coautor do estudo e coordenador do PELD-BISC, os resultados reforçam a necessidade de revisar práticas de manejo em unidades de conservação. Estratégias de manejo integrado do fogo, com queimadas prescritas e controladas, podem ajudar a preservar a biodiversidade desses campos e reduzir o risco de incêndios catastróficos.
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