Uma pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina trouxe novas evidências sobre uma interação ecológica ainda pouco estudada no Planalto catarinense. A bracatinga, árvore típica da região, hospeda cochonilhas que sugam sua seiva e excretam um melato. Esse recurso serve de alimento para dezenas de espécies de aves, mas ainda é pouco documentado pela ciência.

Quete do Sul interagindo com a Bracatinga (Ariane Ferreira)
O estudo foi conduzido por Joana Nascimento de Mattos, com orientação dos professores Eduardo Giehl e Guilherme Brito, dentro do programa PELD BISC, que monitora a biodiversidade de Santa Catarina. Os resultados foram publicados no Journal of Ornithology, periódico internacional de ornitologia. Vale destacar o ineditismo: no Brasil, nunca tinha sido publicado um trabalho sobre as relações entre aves e o melato da bracatinga.
Para investigar o assunto, a equipe escolheu 15 árvores no Parque Nacional de São Joaquim e passou a observá-las ao amanhecer e ao entardecer, horários em que as aves estão mais ativas. O resultado surpreendeu: 39 espécies foram flagradas aproveitando o recurso, sendo que 15 delas nunca tinham sido registradas comendo algo parecido, incluindo aves antes consideradas apenas comedoras de insetos. Entre os visitantes, o pequeno beija-flor-de-papo-branco era esperado, mas papagaios também apareceram, alguns lambendo o tronco e outros arrancando pedaços para comer com as patas.

A pesquisadora faz a observação das aves (João Garbers)
A pesquisa também mostrou um lado competitivo dessa história. Quando o melato é abundante e há muitas bracatingas próximas, espécies mais agressivas, como o próprio beija-flor-de-papo-branco e a mariquita-do-sul, dominam o local e expulsam as concorrentes. O efeito é curioso: onde sobra comida, sobra menos diversidade, porque poucas espécies tomam conta de tudo.
Mais do que catalogar visitantes, o estudo aponta um caminho para a conservação. A bracatinga cresce associada à araucária, espécie ameaçada de extinção, e proteger uma pode significar proteger a outra, junto com toda a teia de aves e insetos que depende desse melato escorrendo pelos troncos. Joana segue investigando o tema no doutorado, agora olhando como as estações do ano e o clima influenciam essa relação.
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