Pesquisadores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), vinculados ao PELD-BISC (programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração - Biodiversidade de Santa Catarina), avaliaram experimentalmente como fatores associados ao fogo - como calor, fumaça e cinzas - afetam a germinação da araucária (Araucaria angustifolia). O estudo, fruto do trabalho de conclusão de curso de Pedro Henrique Creplive Corrales, do curso de Ciências Biológicas (Licenciatura), foi orientado pelo pesquisador Dr. Rafael Barbizan Sühs.

Pedro Corrales apresentando seu TCC.
Os resultados mostram que sementes expostas a cinzas, fumaça líquida e a um choque térmico curto (100 °C por 1 minuto) germinaram de forma semelhante ao grupo controle, com média próxima a 70%. Já o choque térmico mais prolongado (100 °C por 4 minutos) reduziu a germinação para cerca de 20%, indicando um limite claro de tolerância ao calor.
Como o experimento foi feito
O trabalho foi desenvolvido em uma estufa ao lado do Centro de Ciências Biológicas (CCB) da UFSC, em Florianópolis. Os pinhões foram coletados no inverno de 2024 nos municípios serranos de São Joaquim, Urubici e Bom Jardim da Serra. Ao todo, 750 pinhões foram plantados em bandejas e divididos em cinco tratamentos: choque térmico a 100 °C por 1 minuto, 4 minutos, irrigação com fumaça líquida, aplicação de cinzas no substrato e controle (apenas água). A cada dois dias, durante 72 dias, as sementes foram vistoriadas para acompanhar a emissão da radícula.

Pedro e seu orientador Rafael Barbizan Sühs realizando os experimentos.
“A nossa hipótese inicial era que o fogo, e seus subprodutos, fossem favorecer a germinação da araucária, como acontece em várias espécies de ambientes sujeitos ao fogo. Isso não se confirmou, mas o que encontramos é igualmente interessante: as sementes mantêm sua viabilidade quando expostas a condições simuladas de fogo de baixa severidade”, explica Pedro Corrales, autor do estudo. “Por outro lado, quando o calor é mais prolongado, a germinação cai bastante. Isso sugere que existe um limiar, e que incêndios mais intensos, cada vez mais frequentes em cenários de mudança climática, podem comprometer a regeneração da espécie.”
O que os dados mostram
Tratamentos com cinzas, fumaça líquida e choque térmico de 1 minuto não diferiram do controle.
O choque térmico de 4 minutos reduziu significativamente a germinação.
A velocidade média de germinação foi de 36,5 dias, sem diferença entre tratamentos.
O peso da semente teve papel importante: pinhões mais pesados germinaram em maior proporção e em menos tempo.
Implicações para a conservação
A araucária é uma espécie-chave dos mosaicos de campo-floresta do sul do Brasil e está criticamente ameaçada de extinção. Sua história está ligada ao fogo há milênios, tanto pela ação climática quanto pelo manejo dos povos Jê meridionais (ancestrais dos Kaingang e Xokleng), que ocupam a região há pelo menos 5000 anos.
“Ao mostrar que as sementes mantêm sua germinação sob condições simuladas de fogo de baixa severidade, mas são vulneráveis ao calor prolongado, o estudo dialoga diretamente com o cenário atual de mudanças climáticas e aumento dos incêndios florestais”, comenta o orientador Rafael Barbizan Sühs. “Testar os efeitos do fogo na araucária é fundamental porque, nas regiões mais altas do sul do Brasil, as florestas com araucária ocorrem em mosaicos com campos de altitude, que são ecossistemas que dependem de distúrbios como o fogo e pastejo para sua manutenção. Nesse contexto, entender essa interação ajuda a explicar a dinâmica entre campos e florestas. Além disso, esse tipo de informação reforça que o manejo integrado dos campos seja com fogo e/ou gado, é portanto essencial para reduzir o risco de incêndios de alta severidade nas florestas. Estratégias como o uso planejado do fogo e a manutenção de regimes adequados podem evitar o acúmulo excessivo de biomassa e, consequentemente, eventos catastróficos, como o que ocorreu em 2020 no Parque Nacional de São Joaquim. Assim, torna-se essencial evitar tanto a supressão total do fogo quanto a ocorrência de incêndios extremos em áreas de ocorrência da espécie.”
A defesa do trabalho de conclusão de curso ocorreu em 29/04/2026.

Da esquerda para a direita, Rafael Barbizan Sühs, o membro da banca Fernando Joner e o aluno Pedro; ao fundo, Gustavo Lemes participa da banca de forma remota.
O trabalho contou com financiamento do CNPq, por meio do Projeto de Iniciação Científica (PIBIC) e da FAPESC - Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina.